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BREVE RELATO SOBRE OS VALDENSES!

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Colaboração de Samuel Grande

Narra Louis Francescon: Em março de 1892, com o grupo evangelizado pelo irmão M. Nardi e algumas famílias de fé “Valdense”, foi criada nesta cidade (Chicago) a primeira Igreja Presbiteriana Italiana, sendo o Sr. Fillippo Grilli, pastor. Eu fui eleito um dos três diáconos e, após alguns anos, ancião.

ANABATISMO

Segundo Luís de Castro Campos Jr, Louis Francescon recebeu influência dos valdenses e sobre esse aspecto tornam-se importantes alguns comentários. Os antigos valdenses tinham um conceito fundamental: a Bíblia, em especial o Novo Testamento, se constituía na única regra de fé e vida, e as interpretações eram realizadas de forma literal. Dentre os preceitos básicos estavam: o uso apenas da oração dominical, ações de graça antes das refeições, a pratica de ouvir confissões e a de celebrar em conjunto a ceia do Senhor. Deus revelou a Louis Francescon o batismo bíblico, por imersão e na idade adulta, vamos agora conhecer o batismo de adultos por imersão, também chamado anabatismo.

No livro Pentecostalismo, Luís de Castro Campos Jr escreveu: Protestantismo e pentecostalismo são movimentos que apresentam uma relação de proximidade. Surgido no contexto em que se deu a Reforma, na Europa do século XVI, o anabatismo, de natureza radical, foi reprimido por reformadores como Zwinglio e pela igreja católica. Fundamentalistas, os grupos anabatistas foram marginalizados, mas suas atividades ultrapassaram as fronteiras suíças, atingindo a Morávia. A perseguição a esses grupos religiosos favoreceu sua expansão pela Alemanha e pelos Países Baixos.

Ao atingir a Morávia (Linchenstein) esse movimento se propagou com certa rapidez, imbuído de profundo caráter pietista. Suas idéias reapareceram mais tarde, influenciando de forma indireta grupos batistas, quacres e congregacionais. Os meios encontrados pelos governos nos diferentes países para sufocar o anabatismo incluíam a execução e as prisões. Alguns de seus principais líderes não conseguiram fugir para países próximos da Suíça, e foram queimados em praças públicas ou mesmo afogados nos rios.

PENTECOSTALISMO

Para W. J. Seymour havia três estágios na “vida espiritual” do pentecostal: a conversão, também definida por regeneração; a santificação, que era necessária para “purificar o coração”, e o batismo do Espírito Santo, tendo sinal o dom de línguas.

A revelação pentecostal italiana tem origem em um pastor batista (no passado anabatistas) chamado W. H. Durhan, que atuava em Chicago. Discordava de Seymour, para Durhan haveria apenas dois estágios: o da conversão, ou regeneração, e o do batismo do Espírito Santo, seguido de novas línguas. A santificação seria um processo contínuo, por toda a vida do pentecostal, e não um estágio intermediário entre a conversão e o batismo do Espírito Santo.

Vamos então conhecer os valdenses em uma reportagem da década 1970, mas muito brilhante.

VALDENSES Um refúgio nos Alpes

Por Cotton Coulson

Na parte meridional dos Alpes Ocidentais conhecida como Alpes Cocianos existe uma série de vales de extrema beleza, delimitados pelas bacias dos rios Pellice e seu afluente Chisone. E nesses vales, denominados Valdenses, vive um povo que vem mantendo antigas crenças espirituais com amor e persistência só comparáveis ao amor pela terra em que vivem e à persistência na luta para dela arrancarem o alimento de cada dia. Há mais de oito séculos que os valdenses — discípulos de Pedro Valdo, um generoso mercador de Lyon, cujo apelo espiritual nasceu de sua determinação em dividir seus bens materiais com os pobres — para ali foram, a fim de fugir das autoridades civis e religiosas que tiveram seu poder e riqueza por eles denunciados. Em 1685 foram expulsos dos seus vales pelos exércitos de Luís XIV, depois de um massacre em que morr eram milhares de pessoas. Três anos mais tarde, oitocentos desses refugiados que se salvaram foram conduzidos de volta para seus antigos bens pelo patriarca Henri Arnaud, numa façanha descrita por Napoleão como uma das maiores da história.

As origens desse movimento iniciado por Valdo, ou Valdes, são obscuras, pois as poucas fontes, além de, na sua maioria, datarem de épocas bem posteriores, são hostis, já que fornecidas por escritores católicos ou tiradas de registros da Inquisição. O que se sabe com alguma certeza é que Valdo, um rico comerciante de Lyon, após haver providenciado a segurança econômica de sua família, buscou a perfeição cristã no voto de pobreza por amor a Cristo. Nesse sentido, ele começou a pregar textos do Evangelho tirados de traduções francesas e que revelam a palavra de Jesus a esse respeito. Essa pregação leiga sobre textos não-latinos da Bíblia acabou por criar uma forte oposição a Valdo por parte das autoridades eclesiásticas. Os seguidores de Valdo começaram a ser denominados os pobres, e logo depois os pobres de Lyon, para, finalme nte, serem pejorativamente chamados os pobres de espírito, devido à sua oposição às riquezas do clero.

Em 1179 Valdo compareceu ao Terceiro Concílio de Latrão e teve confirmado seu voto de pobreza pelo Papa Alexandre III, tendo este, porém, proibido que ele ou qualquer um de seus seguidores pregassem, por considerá-los teologicamente incapazes. Dois anos depois, como eles não cumprissem a ordem papal, foram excomungados pelo bispo de Lyon, Jean de Belles-Mains, que passou a persegui-los até conseguir que no Concílio de Verona, realizado em 1184, essa excomunhão fosse confirmada pelo Papa Lúcio III, fato de que logo se aproveitou Belles-Mains para expulsá-los da sua diocese.

Essa atitude levou Valdo e seus seguidores a abandonarem definitivamente os caminhos do catolicismo. Passaram a pregar a inexistência do Purgatório e a rejeitar alguns dos sete sacramentos. Baseando-se em um biblicismo simplificado, em razão de seu quase nenhum conhecimento de Teologia, eles se atinham mais a um rigorismo moral e a um violento ataque aos abusos da Igreja da época do que apresentar uma nova realidade religiosa. A resposta da Igreja Católica não se fez muito esperar. Por volta de 1197 a perseguição intensificou-se e a prática de queimar todos os heréticos sob condenação, a fim de exterminar definitivamente a seita, foi introduzida na Espanha, onde já se encontravam adeptos de Valdo. Logo essa perseguição se espalhou por diversos países europeus, a ponto de em 1121 só na cidade francesa de Estrasburgo serem que imados vivos oitenta valdenses. Daí por diante, até meados do século XIX, quando os valdenses receberam pela primeira vez direitos civis, sua história é cheia de perseguições e violências por parte de reis ou clérigos.

Dessas perseguições, algumas foram particularmente sanguinárias, como a de 1487, movida por Iolanda de França, irmã de Luís XI e viúva do Duque de Savóia. Nessa época, os valdenses haviam emigrado para a Provença, instalando-se nas localidades de Cabrières e Mérindol. Ali eles desenvolveram alguns trabalhos literários, inclusive a tradução da Bíblia para o provençal, obras em prosa, que na verdade eram paráfrases de Hussite Taborite, e também alguns poemas, como La Nobla Leiczon, que é uma profissão de fé dos seus pontos de vista religiosos. Durante esse período, eles viveram como animais, refugiados em grutas, e sempre que apanhados eram queimados como feiticeiros ou hereges. Com o advento da Reforma, deixaram-se convencer por Guillaume Farel, ministro de Genebra, que conseguiu que aceitassem a doutrina calvinista. Mas isso não satisfez os clérigos, e os valdenses tiveram que pegar em armas para defender sua liberdade religiosa, em 1530, contra os ataques determinados pelos bispos da Dieta de Aix-la-Chapelle. Em 1535, Francisco I, de Franca, na tentativa de fazer cessar as lutas, concedeu-lhes uma anistia, com a condição de que abjurassem dos seus erros. Não aceitando a imposição, os valdenses entraram novamente em luta para defender sua causa. Isso foi razão suficiente para que a Dieta de Aix-la-Chapelle decretasse sua sentença, condenando-os ao extermínio completo. As povoações de Mérindol e Cabrières foram reduzidas a cinzas, tendo sido mortos mais de quatro mil valdenses.

Depois disso, é forçoso admirar a persistência desse pequeno grupo, lutando por seus ideais contra forças tão poderosas como as dos Duques de Savóia, dos reis de França ou, algumas vezes mesmo, dos dois reunidos. Só a partir do século XVIII é que a região alpina começou a gozar de uma certa tranqüilidade, até que em 1798 o General Joubert anexou o Piemonte à França, tendo o Diretório revolucionário concedido cidadania aos valdenses. No entanto, por ocasião do Congresso de Viena, em 1815, após a derrota de Napoleão, esse direito lhes foi tirado. Em 1848, porém, Carlos Alberto, rei da Sardenha-Piemonte, restituiu-lhes definitivamente a cidadania.

Atualmente, a Igreja Valdense é membro da Aliança Presbiteriana Mundial. Existem na Itália cerca de setenta congregações valdenses com um número quase idêntico de ministros e cerca de trinta mil seguidores. O corpo supremo da Igreja Valdense é a Távola, composta de um moderador, quatro superintendentes e dois leigos, eleitos anualmente por um Concílio que se reúne na cidade de Torre Pellice.

Há muito tempo que os valdenses dos vales chegaram a um acordo com os católicos da região. Um de seus ministros, que já se aposentou e vive em Torre Pellice, resumiu o fato da seguinte maneira: “Hoje em dia o assunto da religião é evitado, e as relações sociais entre diferentes seitas são bastante normais. A atitude de cada um é a de que ‘você tem uma religião e nós temos a nossa’. E, além do mais, muitas coisas se modificaram, principalmente por causa dos inúmeros casamentos mistos, que já não são mais vistos como impraticáveis, e que levam católicos a transformarem-se em valdenses, ou vice-versa”.

Existem valdenses que ainda sentem preocupação pelo futuro e pela preservação dos antigos costumes, pois temem ser absorvidos pelos homens de negócio e pela política que o governo italiano vem desenvolvendo na região. Segundo eles, nos últimos 50 anos grande número de milionários italianos vem comprando por preços irrisórios velhas fazendas valdenses nas montanhas. Antes do movimento fascista, podia-se distinguir um católico italiano dum valdense, pois este só falava francês e um dialeto local derivado da langue d’oc. Hoje, só se ouve o dialeto entre os habitantes das montanhas, enquanto o italiano é a língua ensinada nas escolas. Mas a maioria dos que moram nos vales acredita que isso é normal, que o mundo deve mudar de acordo com as necessidades e que não se pode viver isolado só com as tradições.

Os poucos fazendeiros que restam são por natureza amantes da terra. Eles respiram tradição e religiosidade, sentem um digno orgulho pelo trabalho que realizam e prezam a liberdade de que desfrutam. E um deles, apontando o dedo acusador para baixo, diz: “Aqui temos um espírito livre e não obedecemos a regras que não sejam nossas ou de nossa fé. Lá, nas cidades, há gente má e lugares maus. Mas aqui, nas montanhas, a vida é simples. Nós trabalhamos, comemos e dormimos — é o suficiente para satisfazer a qualquer homem. Nossas atitudes sempre foram diferentes daquelas pessoas dos vales. Aqui em cima buscamos a tranqüilidade e não nos preocupamos muito com dinheiro. Quando criança, só me lembro de meus pais falando de trabalho e mais trabalho. Mas, cá entre nós — confidenciou —, estou contente de nunca ter parado de trabalhar. Não sei o que faria sem minha terra e meus animais para cuidar”.

Mas cada vez se encontram menos desses valdenses. Um fazendeiro trabalhando pacientemente sua terra com ferramentas rudimentares, ou levando nas primeiras horas da manhã suas vacas e ovelhas, tangendo-as volta e meia com o cajado em que se apóia, enquanto se dirige a elas e aos seus cães em dialeto, é um quadro tão difícil de se ver que já inspira a muitos membros da comunidade um sentimento de nostalgia. Os fazendeiros não possuem propriedade privada. Eles pagam à comunidade pelo privilegio de lavrar e criar. Talvez, por isso, seja cada vez mais raro encontrar quem deseje permanecer nas montanhas. A cada ano que passa, mais e mais agricultores se mudam para os vales mais baixos, onde as colheitas são melhores, enquanto que outros tantos abandonam esses mesmos vales para irem trabalhar em alguma fábrica na cidade.

Toda sexta-feira pela madrugada os fazendeiros descem para Torre Pellice, a principal cidade dos vales. Ali vão para vender frutas, legumes, queijos e manteigas. Todos vestem sua melhor roupa: calças e coletes de veludo colorido, camisas brancas e chapéu alpino. É quando se podem encontrar pessoas como Edy e Lívia Berin, duas jovens de pouco mais de vinte anos que moravam com a mãe nos vales, mas após sua morte preferiram ir viver junto com os fazendeiros das montanhas. Durante a semana, elas confeccionam dois tipos de queijo feitos com leite de cabra. “A receita é simples. Ferve-se o leite de cabra com o ácido que existe dentro do estômago do carneiro. Assim que o líquido começa a solidificar, retira-se a massa da vasilha e embrulha-se em um pano, deixando-a pendurada até curtir. Isso acontece em alguns dias. Durante esse t empo, para preservar o queijo, acrescenta-se-lhe sal”. Edy e Livia aproveitam também sua ida à cidade para participar do culto dominical. Na igreja, ainda se mantém a tradição de sentarem-se os homens de um lado e as mulheres do outro. Após os hinos de louvação, o pastor levanta-se e antecede o sermão com esta oração: “Sabendo que Deus quer salvar-nos e àqueles que viveram antes de nosso tempo, nós Lhe pedimos que nos dê meios e poder para tornarmo-nos Seu instrumento. Queremos estar com Ele e seguir Sua vontade. Pedimos que nos convide a realizar diretamente as provas de Seu amor pelos aflitos e com carência espiritual. Amém”.

No alto das montanhas de Torre Pellice algumas famílias ainda aram suas terras o ano inteiro, muito embora saibam que elas estão ameaçadas de extinção devido à pouca produtividade e à baixa renda. Elas se queixam da mudança dos tempos, e lembram que antigamente todos nos vales trabalhavam a terra e agradeciam a Deus. Hoje em dia, no entanto, “só pensam em ganhar dinheiro e em comprar propriedades cada vez mais caras. Não respeitam mais a Deus, tudo o que Dele resta é só o nome e não a crença”. No entanto, o futuro dos vales parece estar garantido, graças aos recentes esforços desses valdenses de quem eles se queixam. O turismo tornou-se um excelente negócio, e restaurantes e hotéis desenvolveram-se rapidamente, proporcionando emprego aos filhos dos fazendeiros. A poucos minutos de Torre Pellice foi montada por valdenses uma das maiores fábricas de chocolate da Itália, que fabrica uma qualidade do produto, o Gianduja, famosa em toda a Europa. A indústria emprega mais de trezentos valdenses, e muitos outros, inclusive fazendeiros (estes, durante o inverno), trabalham na Talco & Graffiti, uma das maiores empresas dedicadas à produção do talco na Europa.

Numa aldeia de pedra chamada Orgiere, no vale de Germanasca, vivem nove famílias; as mulheres trabalham no campo para ajudar os maridos, enquanto estes dividem seus afazeres na fazenda com os trabalhos nas minas de talco. E um deles, Atillio Peyrot, diz: “Quando eu era um jovem de 20 anos, tinha horror de trabalhar nas minas. Lá era escuro como breu. E sempre havia o perigo de uma explosão. Agora que estou mais velho, o trabalho se tornou uma rotina. E, além disso, é a única maneira de me manter na fazenda. E eu adoro trabalhar a terra”.

Mas, quando se sai dos vales, o que realmente fica na lembrança é aquela gente persistente nos seus ideais de vida. Persistente como o foram seus antepassados nos seus ideais de fé. Aquela gente do alto das montanhas, que vive em pequenas casas de pedra, tangendo seu gado e falando dialeto. Os rústicos mas amáveis fazendeiros valdenses, que quando alguém insinua que devem deixar suas montanhas para irem viver nas cidades dos vales só tem uma resposta: “Eu nasci aqui, meu lar é aqui. Eu sou como as ervas, só posso viver onde estão minhas raízes”.

GLOSSÁRIO

Anabatismo: Movimento religioso que se expandiu por algumas regiões da Europa, entre as quais Suíça, Morávia, Alemanha, com ênfase no batismo adulto por imersão. Por seu caráter sectário foi marcado por profundas perseguições.

Valdenses: Nome pelo qual são conhecidos os membros de um grupo protestante fundado na região francesa de Vaud (hoje cantão da Suíça), no séc. XII.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

CAMPOS JR, Luís de Castro. Pentecostalismo. São Paulo: Ática, 1995.

COULSON, Cotton. Revista Geográfica Universal. Bloch Editores. Julho de 1975.

Texto enviado por Samuel Grande
 


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